O OLHO E O RIO > 

  

O que faz com que duas pessoas se encontrem toda semana, sempre no mesmo horário, durante meses ou mesmo anos a fio para se sentarem uma diante da outra quase imóveis, quase quietas, por duas horas ou mais, cúmplices em um propósito que se revela de saída impossível: o de fixar em uma única imagem a inescrutável face humana?   (Ernesto Bonato - Todo retrato é um rio, 2016)


A pintura do retrato vem sendo investigada pelo artista Ernesto Bonato desde 2009 como meio de se estabelecer encontros dilatados com o outro, onde tempo, diálogo e silêncio tornam-se tecido na construção conjunta de uma imagem que é ao mesmo tempo identidade e alteridade. O convívio nascido desse acordo voluntário entre dois indivíduos que se encontram regularmente para se olharem mutuamente, gera uma possibilidade de diálogo muitas vezes mudo, que vai sendo de algum modo registrado na tela, em uma imagem sintética. O tempo das sucessivas poses impregna o retrato pintado de uma qualidade diversa daquela captada instantaneamente pelo equipamento fotográfico, emprestando corpo à duração. No decorrer dos encontros, a expectativa de construção de uma imagem que corresponda a persona do retratado é desafiada pelo tempo e pelo olhar do outro e acaba por ser subvertida, gerando muitas vezes um não retrato: uma imagem que pode revelar aquilo que não se queria ou não se sabia. Nesse processo, o convívio e a observação são fundamentais para a construção da obra, que vai além da pintura em si, mas engloba o próprio ato de sentar-se diante do outro, os depoimentos e silêncios envolvidos. O conjunto de pinturas das mais diferentes pessoas, realizadas em diversas situações e locais, mas sempre partindo da premissa do convívio, da escuta e do silêncio, constitui-se em um indício de uma outra possibilidade de abordar a representação da face humana, tão exacerbada em nossa época pelos meios de informação, redes sociais, celulares, publicidade e pela arte, quase sempre mediadas ou derivadas da fotografia e do vídeo. O reencontro da observação direta, do desenho e da pintura desloca a questão do campo da pura representação e das implicações sociais e políticas da imagem, para o da ação, do fazer e da experiência existencial, implícitas nos encontros e na pintura que deles deriva. Busca-se subverter a própria noção do retrato como afirmação/confirmação da personalidade e da imagem social que se quer oferecer, para, no lugar disso, assumir essa prática como uma possibilidade de encontro e reconhecimento de si e do outro.


A exposição o olho e o rio, em cartaz no Museu de Arte Contemporânea de Campinas, de 20 de setembro a  27 de outubro de 2018, reune cerca de 100 pinturas, desenhos e gravuras, realizados entre 2008 e 2018, pelo artista Ernesto Bonato. As obras estão agrupadas por diferentes critérios de modo a criar uma grande instalação que permitirá ao visitante perceber as relações significativas entre os grupos de retratos. Algumas das obras presentes na exposição estão relacionadas à vídeos e áudios gravados durante as sessões de pintura, os quais podem ser assistidos pelo celular utilizando os códigos QR encontrados nos espaços expositivos. Além disso, um vídeo criado por Vinícius Cruz, abordando os encontros entre o artista e os modelos, com cerca de 11 minutos de duração, é exibido continuamente na mostra. A exposição conta também com um ateliê onde ocorrem sessões de pintura e desenho com modelos voluntários de terça à sexta. O ateliê também abriga palestras, conversas e exibição de vídeos ( ver programação ). A presença do ateliê em um dos espaços expositivos do museu busca enfatizar o encontro e a ação como parte da obra pictórica, além de criar a oportunidade para se investigar a representação da figura humana a partir de diferentes dinâmicas. O acesso à exposição é gratuito e ainda conta com o serviço de visita compartilhada mediante agendamento


O projeto o olho e o rio foi contemplado pelo Proac, da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, em 2017.



FICHA TÉCNICA DA EXPOSIÇÃO >
macc > 21.09 - 27.10.2018
concepção e coordenação geral | ernesto bonato
assistentes | diana lanças e vinícius cruz
educativo | a árvore
orientadores de visita | diana lanças e vinícius cruz
orientadores de ateliê | diana lanças e vinícius cruz
modelos | clara leite e diego alexandre
palestrantes | paulo portella filho e renato brolezzi
vídeos | vinícius cruz
música | âmago trio
maquete | a árvore, diana lanças e vinícius cruz
montagem | a árvore
iluminação | MMV montagem e vídeo
material gráfico e sinalização | ernesto bonato e marina faria
assistentes de produção e montagem | Beatriz Schwartz, Camile Rossetto, Caró Brandão, Clara Leite, Erick Vieira, Joana Henry Lemos, Paloma Cassari , Pedro De Conti, Thiago Lopes de Oliveira
assistentes de ateliê | Camile Rossetto, Caró Brandão, Clara Leite, Erick Vieira, Ioannis Fiore, Paloma Cassari, Vitória Leão 


AGRADECIMENTOS >
museu de arte contemporânea de campinas, âmago trio, ciro yoshiyasse, diana lanças, diego alexandre, isabelle cedotti, joão carlos luengo, maria christina manhães bonato, marcelino rafart de serras, marcelo coutinho, marcelo moscheta, marina faria, miguel bonato, MMV montagem e vídeo, neto leão, paulo portella filho, renato brolezzi, sergio guerini, ulysses bôscolo de paula, vinícius cruz, a equipe de voluntários e todos os inúmeros amigos e amigas que posaram dias a fio para os retratos que compõem essa exposição. Esse trabalho é também de vocês e para vocês.

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